A Linha Tênue Que Separa o Super-Herói do Vilão Contemporâneo

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O Que é Ser Vilão Nas Atuais Histórias de Super-Heróis?

Cada vez mais uma parcela da sociedade tende a admirar o comportamento de personagens que durante anos carregaram a imagem de vilão, contrapondo o tradicional apoio a figura do herói.

Não é necessário um conhecimento tão abrangente a respeito de histórias relacionadas a heróis e vilões para se saber que algo muito importante mudou. O tradicional ponto de vista em relação as diferenças entre estes dois tipos de personagem.

Tempos atrás, resolvi comprar para meu filho uma edição especial de Shazam, lançada pela DC Comics. Tratava-se do título “Shazam e a Sociedade dos Monstros” do escritor Jeff Smith, lançado originalmente em 2007. Com um enredo e ilustrações baseadas nos antigos cartoons humorísticos, a relação entre o Capitão Marvel e seu arqui-inimigo Doutor Silvana eram bastante simples: o herói com sua moral inabalável contra o vilão egoísta cuja as motivações é apenas dominar o mundo e ser servido de acordo com seus estranhos prazeres.

E este tipo de relação, com suas respectivas motivações eram vistas em diversas outras histórias. Não havia maneiras de ao menos tentar entender as motivações dos vilões pelo simples fatos destas serem ridículas, beirando um egoísmo infantil de ser adorado. E foi assim entre Superman e Luthor, Capitão América e Caveira Vermelha, dentre outros. Quem se lembra do comportamento dos vilões no desenho animado “Superamigos”?

Era uma outra época, outro tipo de público. Adultos escrevendo histórias para pessoas mais jovens. Tudo isso contou. Porém, a inabalável força do tempo veio para mudar a sociedade e tradicional relação entre herói e vilão precisou mudar.

Quando assisti a 1ª temporada da série da Marvel, Demolidor, na Netflix o contraste a respeito deste assunto foi descarado. Não digo que foi o primeiro, mas foi forte o suficiente para mostrar, ao menos na TV nesta nova safra de séries, que herói e vilão já não podem ser separados por meros “lados”. Eles apenas são jogados, apresentados e oferecendo ao telespectador a oportunidade de escolher o lado que bem entende, sem aquele peso de “putz, sou mal porque prefiro o vilão ao herói”.

Quando eu ainda lia as revistas do Homem-Aranha, na clássica fase da Editora Abril, um dos vilões que mais se destacavam era com certeza Wilson Fisk, o Rei do Crime. Até aquele momento era impossível alguém se sensibilizar com as motivações deste personagem, sádico, arrogante e egoísta. Mas hoje, quando o vejo na série do Demolidor eu consigo compreender suas motivações, suas atitudes refletem o que provavelmente muitos de nós faríamos em determinados tipos de circunstâncias. O vilão, enfim tornou-se humano.

Outro grande exemplo é Ozymandias, personagem criado por Alan Moore para sua grande obra Watchmen. “Matando milhões para salvar bilhões”, disse o vilão da história em seu grande plano para salvar o mundo. Como qualificar a opinião deste personagem? Como condenar a sua atitude? Que tipo de vilão/herói este seria?

E digo isso também do herói. Eu particularmente detesto o típico comportamento “santo”, “perfeitinho”, “bonzinho” que algumas pessoas tentam passar. E isso também condiz com minha opinião a respeito destes heróis. Provavelmente eu devo fazer parte de um grupo gigantesco de pessoas que também pensam assim, não é atoa que a popularidade do herói tradicional começou a cair dando espaço ao glorioso anti-herói. Estes sim possuem sangue no olhos, eles compartilham conosco aquele calor ao se depararem com determinados tipos de situações. Cara, o motivo pelo qual Rorschach matou o assassino de crianças em Watchmen, foi como um vulcão em erupção quando nos deparamos com alguma situação que realmente nos causa indignação.

O herói é a idealização do bem, enquanto o anti-herói é a representação da realidade propriamente dita. Deadpool explica muito bem isso em seu filme ao falar (de forma engraçada) a Colossus o porque ele não quer se juntar aos X-Men. Ele falou tudo que pensamos ao analisar a figura do herói propriamente dita.

E de uns anos para cá, a coisa toda começou a se misturar. Antes todos defendiam o mesmo time, mas agora cada personagem, independente da sua postura nas histórias, carrega consigo uma legião de fãs. Quer um exemplo melhor do que o Coringa? O palhaço das histórias do Batman apesar de parecer ter pego o caminho contrário a tudo que eu falei, pois suas atitudes parecem ter ficado mais doentias e sem sentido do que nunca, agora carrega um imenso grupo de fãs que o preferem ao invés do homem-morcego.

Quantos aqui assistiram o trailer de Esquadrão Suicida, esperando o momento do Coringa aparecer? E por qual motivo há esta adoração por um personagem que a cada ano que passa torna-se ainda mais repulsivo por seu nível de psicopatia?

Eu sinceramente prefiro assim, aliás, sempre admirei o trabalho dos vilões até mais do que o do próprio herói, por conta da determinação em seus planos, por causa da inteligência e da garra. E toda esta complexidade de hoje, acaba por forçar o herói a agir da mesma forma, diferente de anos atrás onde ele seguia a tradicional fórmula “apanha, apanha, apanha e no final se liberta e derrota o vilão da forma mais simples do mundo”.

A coisa tornou-se tão séria que chegamos ao ponto de querer ver todo aquele brilho do herói tradicional indo para o buraco, se aproximando mesmo da figura do vilão, assim como em Batman vs Superman da DC Comics e Guerra Civil da Marvel. A verdadeira crise dos heróis é trazê-los para a esfera da realidade, compartilhando conosco sentimentos como paixão e fúria.

E você, nesta atual situação, de qual lado estão seus personagens preferidos?

Sobre o Autor

Sandro Pessoa

Metalhead, guitarrista, colecionador de livros e hq's, fundador do site MonsterBrain e Lorde Sith nas horas vagas.