Neuromancer | Crítica

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O ciberespaço muito antes de nossa Internet existir, contado em Neuromancer

A primeira vez que comecei a ler Neuromancer, admito que não consegui compreender muito bem sobre o que aquilo realmente significava. Decidi parar e ir em busca de resenhas e opiniões afim de compreender o motivo por qual tal obra era tão aclamada.

A partir de então, consegui entender aquilo que o autor se propôs a oferecer e com novos olhos iniciei novamente a leitura. O resultado foi um profundo mergulho em um megapoderoso universo, recheado de nomenclaturas, referências e as mais distintas personalidades sob o ponto de vista futurístico de alguém que ainda vivia nos anos 80.

Neuromancer foi escrito por William Gibson e publicado originalmente em 1984. No Brasil, foi publicado pela Editora Aleph e atualmente encontra-se em sua quinta edição. Um verdadeiro marco na cultura cyberpunk, vencedor dos três principais prêmios da ficção científica mundial: Hugo Award, Nebula Award e Philip K. Dick Memorial Award, considerado entre os cem melhores romances em língua inglesa pela revista Time.

William Gibson

William Gibson é um verdadeiro profeta da literatura sci-fi, apresentando em Neuromancer tecnologias que seriam vistas em nosso mundo, somente anos após a publicação do livro.

É realmente incrível como Gibson foi capaz de criar uma história tão ampla, com nomenclaturas sofisticadas em apenas um ano (um livro que levaria cinco anos para ser terminado).

O céu sobre o porto tinha cor de televisão num canal fora do ar

Neuromancer não é um livro para ser lido como qualquer outro, mas um livro para ser estudado. A cada nova leitura algo novo é apresentado, devido os inúmeros aspectos abordados pelo autor.

O livro conta a história de Case, um rapaz de 24 anos considerado entre os seus como um cowboy fora da lei (uma espécie de hacker). Após roubar de seus empregadores, Case foi castigado com a introdução de uma toxina em seu cérebro, impossibilitando-o de se conectar ao ciberespaço, uma internet na qual ele era capaz de acessar mentalmente.

Aprisionado a realidade, em uma prisão de carne, Case passou a viver de maneira bastante precária entre os bares do Sprawl (região entre Atlanta e Boston). Foi então que, contatado pela personagem Molly, a mando do misterioso Armitage, Case teve uma nova chance de reestabelecer suas capacidades de se conectar a Matrix.

Ele foi contratado e curado por Armitage, afim de desempenhar algumas missões por meio do ciberespaço. No entanto, como medida de segurança foi introduzido em seu corpo sacos de toxinas que o prejudicariam novamente, caso ele não cumprisse com seu dever.

As finalidades destas missões eram bastante obscuras, o que despertou a curiosidade de Case e Molly em descobrir quem realmente era Armitage. O que eles descobriram em seguida, fazia parte de algo bem maior do que eles poderiam imaginar. Quem seria Wintermute, o que seria Neuromancer?

Este livro mostra uma sociedade pós-apocalíptica, com ambientes sujos e grotescos recheada de tecnologias de ponta, interligadas principalmente com o aspecto cibernético. É comum encontrarmos pessoas cujos os membros foram trocados por próteses mecânicas, com órgãos transplantados em consultórios visualmente precários em higiene.

O aspecto punk da sociedade faz com que muitas pessoas reestruturem a fisionomia de seus próprios corpos, gerando inclusive repulsa por parte dos próprios protagonistas ao se depararem com figuras humanoides que um dia foram seres humanos comuns.

Os termos criados e utilizados por William Gibson durante a história geram em primeiro momento um desconforto quanto a compreensão daquilo que está acontecendo, tanto é que nesta edição temos a disposição um glossário que nos permite entender tais termos.

Muitas vezes não sabemos quando os personagens estão no mundo real ou se estão no ciberespaço, e será a compreensão dos termos utilizados por Gibson que nos permitirá uma melhor ideia sobre o que representa cada momento ali presente.

Por isso Neuromancer não deve ser lido de maneira rápida e superficial, pois a falta do entendimento necessário pode levar o leitor a se perder entre os capítulos e não perceber o valor da história.

O livro serviu de inspiração a diversas outras obras da ficção científica, a principal delas a trilogia Matrix que aborda com muita proximidade a conexão das pessoas com o ciberespaço por meio de eletrodos conectados aos seus sistemas nervosos.

Os próprios personagens de Matrix parecem ter sido fortemente inspirados por este livro: Case (Neo), Molly (Trinity), Armitage (Morpheus), dentre outros que também possuem bastante semelhanças. A própria região de Zion, explorada no livro foi utilizada nos filmes.

Outras mídias como as histórias japonesas de Ghost in the Shell e Akira, o filme A Origem, os cenários apresentados no clássico Blade Runner possuem profunda ligação com o ambiente mostrado em Neuromancer.

Este livro faz parte da chamada Trilogia do Sprawl, seguida pelas obras Count Zero e Mona Lisa Overdrive e é totalmente indicada aos fãs de literatura sci-fi, pós-apocalítptica e cyberpunk.

A capa da sexta edição de Neuromancer foi encomendada pela Editora Aleph, produzida por Pedro Inoue e Josan Gonzalez. Uma arte incrível, nos padrões de qualidade que a Aleph vem buscando apresentar em todos os seus lançamentos. A arte foi elogiada publicamente pelo próprio William Gibson, como a melhor capa de Neuromancer já lançada.

O conteúdo atemporal de Neuromancer, reflete o âmago do próprio ser humano com relação a sua necessidade em manusear tecnologias que o permitem se conectar entre o mundo real e o virtual.

Você já leu ou tem vontade de conhecer Neuromancer? Deixe seu comentário!

Sobre o Autor

Sandro Pessoa

Metalhead, guitarrista, colecionador de livros e hq's, fundador do site MonsterBrain e Lorde Sith nas horas vagas.